segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O medo sempre me guiou para o que eu quero.

E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado.
Clarisse Lispector

quarta-feira, 21 de julho de 2010

[definições]

Cansado anseio do meu coração sangrando memórias e barulhando segredos. Pulsando sempre um eu tão cheio de ti que nem sei bem quem me tornei, além daquilo que carrego em mim, comigo. Há mais de ti em mim que jamais imaginava ser possível. E é isso que me faz assim, tão tua, sem ser tua. Tão tua, que me perco em ti, dentro de mim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ode marítima


(...)
Ah, todo cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recoração duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
(...)
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.
(...)
Na minha imaginação ele está já perto e é visível
Em todaa extensão das linhas das suas vigias,
E treme em mim, tudo, toda a carne e toda a pele,
Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco
E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblíquo.
(...)
Escuto-te de aqui, agora , e desperto a qualquer coisa.
Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre.
Sinto corarem-me as faces.
Meus olhos conscientes dilatam-se.
O êxtase em mim levanta-se, cresce, avança, (...)
Apelo lançado ao meu sangue
Dum amor passado, não sei onde, que volve
E ainda tem força par me atrair e puxar,
Que ainda tem força par me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica
Da gente real com que vivo!
(...)Ardo vermelho!
(...)
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se o ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte...
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma...
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Advogado terminando namoro

Prezada Otaviana de Albuquerque Pereira Lima da Silva e Souza,
Face aos acontecimentos de nosso relacionamento, venho por meio desta, na qualidade de homem que sou, apesar de VSa. não me deixar demonstrar, uma vez que não me foi permitido devassar vossa lascívia, retratar-me formalmente, de todos os termos até então empregados à sua pessoa, o que faço com supedâneo no que segue:


A) DA INICIAL MÁ-FÉ DE VOSSA SENHORIA:

1.1. CONSIDERANDO QUE nos conhecemos na balada e que nem precisei perguntar seu nome direito, para logo chegar te beijando;

1.2. CONSIDERANDO seu olhar de tarada enquanto dançava na pista esperando eu me aproximar;

1.3. CONSIDERANDO QUE com os beijos nervosos que trocamos naquela noite, V.Sa. me induziu a crer que logo estaríamos explorando nossos corpos, em incessante e incansável atividade sexual. Passei então, a me encontrar com Vossa Senhoria.


B)DOS PREJUÍZOS EXPERIMENTADOS:

2.1. CONSIDERANDO QUE fomos ao cinema e fui eu que paguei as entradas, sem se falar no jantar após o filme;

2.2. CONSIDERANDO QUE já levei Vossa Senhoria em boates das mais badaladas e caras, sendo certo que fui eu, de igual sorte, quem bancou os gastos;

2.3. CONSIDERANDO QUE até à praia já fomos juntos, sem que Vossa Senhoria gastasse um centavo sequer, eis que todos os gastos eram por mim experimentados, e que Vossa Senhoria não quis nem colocar biquíni alegando que estava ventando muito,


C) DAS RAZÕES DE SER DO PRESENTE:

3.1. CONSIDERANDO AINDA QUE até a presente data, após o longínquo prazo de duas semanas, Vossa Senhoria não me deixou tocar, sequer na sua panturrilha;

3.2. CONSIDERANDO QUE Vossa Senhoria ainda não me deixa encostar a mão nem na sua cintura com a alegaçãozinha barata de que sente cócegas,


DECIDO SOBRE NOSSO RELACIONAMENTO O SEGUINTE:

4.1. Vá até a mulher de vida airada que também é sua progenitora, pois eu não sou mais um ser humano do sexo masculino que usa calças curtas e a atividade sexual não é para mim um lazer, mas sim uma necessidade premente;

4.2. Não me venha com 'colóquios flácidos para acalentar bovinos' (conversa mole pra boi dormir!) de que pensava que eu era diferente;

4.3. Saiba que vou te processar por me iludir aparentando ser mulher dos meus sonhos, e, na verdade, só me fez perder tempo, dinheiro e jogar elogios fora, além de me abalar emocionalmente.

Sinceramente, sem mais para o momento, fique com o meu cordial 'vá tomar no meio do olho do orifício rugoso e corrugado localizado na região infero-lombar de sua anatomia' que esse relacionamento já inflou o volume da minha bolsa escrotal!

Dou assim por encerrado o nosso relacionamento, nada mais subsistindo entre nós, salvo o dever de indenização pelos prejuízos causados.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

E começa assim outra estória...

Eu não sei o que me domina
E mesmo assim não penso em me livrar
Num fascínio de alma gêmea
Você em mim constrói o seu lugar
O amor se fez me levando além onde ninguém mais
Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais
Lendo a rota das estrelas
Nesse abraço se fez um ciclo
Que não tem fim e é todo o meu viver
É como alcançar o infinito
Reflete em mim e volta pra você
O amor se fez me levando além onde ninguém mais
Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais
Lendo a rota das estrelas
O amor surgiu como um em mil, por você eu vim
E assim será a me conduzir, sem mandar em mim
Como o vento e o barco a vela, que nos leva sem fim
Ciclo (Jorge Vercilo/Dudu Falcão)

Quem eu sou pra querer entender o amor?

(...)A paixão veio assim afluente sem fim rio que não deságua
Aprendi com a dor nada mais é o amor que o encontro das águas (...)
Qual de nós foi buscar o que já viu partir, quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir? (...)
Encontro das Águas (Jota Maranhão / Jorge Vercillo)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Escrever é esquecer...

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Fernando Pessoa

Paulo Coelho, meu caro...

...eu realmente olhei para a estrada diante dos meus olhos e entendi mas não estou feliz a ponto de estourar fogos de artifício por isso que minha caminhada ia ser muito difícil. Algum dia foi fácil? Sempre dentro do possível  mantenho minhas portas abertas, minhas mãos trabalhando e meus pés em movimento. E estou tremendamente grata grata?!? por desejar que minha caminhada seja lenta porque o meu ritmo é o ritmo da mudança. Como você mesmo disse: 'a verdadeira mudança, sempre leva muito tempo para acontecer.' Muito embora adoraria que tudo isso fosse possível num estralar de dedos...
Ainda bem que eu sou otimista...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Boatos, intrigas, calúnia, mentira, inveja, traição e maldade

Para o bom entendedor meia palavra basta. Já para aquele que não quer entender, deixo cá o meu silêncio e a lástima pela falta de interesse em verdades reais e concretas.  Se lido bem com as palavras, não lhe peço desculpas. Devo a um fantástico professor chamado Ir Balestro... Reclame com ele. Sei que não devo nada, absolutamente nada a ninguém, e meu caráter, pois, continua intacto. As minhas palavras jamais serão um amontoado de discursos vazios. Eu não minto. Eu não omito. Eu sou real, sincera e verdadeira. E disso jamais poderão me acusar. Que fiquem, pois, os 'achismos' e a crença em terceiros... que nem sequer me conhecem a fundo, afinal, "As palavras são como os patifes desde o momento em que as promessas os desonraram. Elas tornaram-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho razão."

Escrito há um tempo, já postado, mas que veio a calhar no momento... Achei que valia a pena complementar o post com mais um tantinho da grandiosa obra de Shakespeare e o faço agora, antes de postar o artigo que já pertencia a esta casa aqui. Sem mais delongas, aí vai.

Otelo é uma das mais conhecidas tragédias de William Shakespeare cujo cerne é o ciúme, a insensatez e a perfídia. Um dos maiores e melhores exemplos de como a palavra pode se tornar manipuladora e desencadear uma série de consequências irremediáveis. Como diria Sardas, 'influência da palavra como criadora de fatos (...) usada para fomentar intrigas, para intrigar corações, para mudar a vida das pessoas, para mudar o rumo das coisas, para provocar rupturas, para criar adesões."

Iago, o invejoso alferes de Otelo, primeiro despertou a ira de Brabâncio, contando que sua filha, a boa e doce Desdêmona, fugira com o Mouro:

Irra, senhor! Irra! O senhor está roubado! Vista-se, por decência!, despedaçaram-lhe o coração, perdeu metade da sua alma; agora mesmo, neste instante, um velho carneiro negro está cobrindo a sua ovelha branca. Levante-se, erga-se! Acorde com o toque de rebate os cidadãos que ressonam descuidados, quando não o diabo fá-lo à avô. Erga-se: digo-lhe eu.
E quando Brabâncio, aturdido, pergunta-lhe que é, responde o intrigueiro:

Sou aquele que lhe vem anunciar que sua filha e o mouro estão agora perfazendo o animal de duas costas.
Não satisfeito, e ambicionado o posto do tenente Cássio, Iago, ainda com a força da palavra, instiga Rodrigo, que é apaixonado por Desdêmona, fazendo-o crer que a doce dama por aquele se apaixonara:

Põe o teu dedo asim e deixa que a tua alma seja instruída. Repara com que violência ela primeiro amou o Mouro, somente pela sua jactância e fantasiosas mentiras. Ama-lo-á ela ainda pelo seu palavreado? Não deixes que o pense o teu discreto coração. Os seus olhos precisam de alimento; e que deleite poderá ela ter em olhar para o diabo? - Quando o sangue está entorpecido pela ação dos deleites, deveria haver - para outra vez o inflamar e saciar -, um novo apetite - beleza que ajudasse, harmonia de idade, maneiras e encantos; tudo isto falta ao Mouro. À mingua destes requisitos essenciais, a sua delicada ternura se achará iludida, começará a sentir náuseas, a enjoar-se e a aborrecer o Mouro. A própria natureza a instruirá no assunto e a compelirá a uma segunda escolha. Agora, posto isto (e é uma suposição a mais fecunda e natural), quem está tão iminente nos degraus desta fortuna como Cássio? - um biltre extremamente volúvel -, com tanta capacidade quanta basta para se envolver nas formas polidas e decentes, com que melhor possa encobrir o seu obsceno e libertino afeto? Ninguém, com certeza ninguém, um sutil e insinuante patife, um farejador de ocasiões, que tem olhos capazes de publicar e simular quando mesmo tais fortunas nunca se deram; um endiabrado velhaco! Além disso, o patife é bonito, novo e tem todos os requisitos que a doidice e a imaginação inexperiente procuram. Um biltre completo, pestilento; e a mulher já está eivada.
E, numa clara demonstração de suas intenções , Iago planeja derramar peçonha no ouvido do Mouro, levando-o, envolvido com as palavras do alferes, a matar a bela Desdêmona.

Divindade do inferno!, quando os diabos sugerem os mais negros pecados, tentam-nos primeiro com aparências celestiais, como eu faço agora; porque enquanto este honesto imbecil pede a Desdêmona que repare a sua fortuna, e ela intercede por ele junto do Mouro, eu derramarei esta peçonha no seu ouvido: - Que ela o protege por motivo da luxúria do seu corpo; - e quanto mais ela tratar de fazer bem, mais destruirá o próprio crédito no conceito do Mouro. Assim transformarei a sua virtude em pez; e a sua própria bondade farei a rede que os colherá a todos.




Segue o post antigo...


A Calúnia de Apeles - Sandro Botticelli, 1494-5

Sabe o que eu mais gosto em Shakespeare? A atualidade dos seus temas. Por incrível que pareça a humanidade é tendenciosa e peca sempre nos mesmos erros.

Infelizmente, não há uma só pessoa na terra que não tenha experimentado o amargor de estar enleada numa teia de intrigas, manipuladores e afins. Triste, mas real.

Neste texto dramático de William Shakespeare, deparamo-nos com uma tragédia na qual o herói, Otelo, é o general reconhecido pelo sucesso obtido nos campos e mares de batalha, de onde sempre traz a vitória aos venezianos. Ao assumir a posição de chefe de Estado em Chipre, nomeia Cássio como seu segundo homem, despertando a inveja de Iago, que irá conduzir a ação rumo ao caos, característica própria da tragédia shakespeareana. A trama desenvolve-se em torno desse sentimento de inveja e do ciúme que Iago instila em Otelo, fazendo-o acreditar que sua esposa Desdêmona o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o sentimento de amor que o general nutre pela mulher, e a desconfiança incitada por Iago, termina conduzindo à queda do herói, que, debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo é destituído do posto de general e é sentenciado à prisão. Seguindo o modelo do herói estóico do teatro elizabethano, Otelo profere o seguinte monólogo, antes de suicidar-se com um punhal, diante dos representantes do governo veneziano:

Uma palavra ou duas, por favor.
Fiz serviços ao Estado; eles o sabem –
Não importa. O que peço é que nas cartas
Em que contarem estes tristes fatos,
Falem de mim qual sou. Não dêem desculpas,
E nem usem malícia. Falem só
De alguém que, não sabendo amar, amou
Demais. De alguém que nunca teve fáceis
Os ciúmes; porém que – provocado –
Inquietou-se ao estremo; cujos dedos,
Como os do vil hindu, jogaram fora
Uma pérola rara, mais preciosa
Que toda a sua tribo; alguém que alheio
Ao hábito das lágrimas, verteu-as
Em abundância, como verte a goma
A seiva de uma árvore da Arábia.
E digam que em Alepo, certo dia,
Quando um maligno turco de turbante
Agrediu um varão veneziano
E insultou rudemente a sua terra,
Peguei a goela ao cão circuncidado
E o golpeei assim!
(HELIODORA, 2006. p.692)


O boato é habitualmente criado pelo inimigo ou adversário que, descobrindo uma descontinuidade, ou uma zona de distorção, imediatamente se dispõe a utilizá-la e a fazer disso uma arma de arremesso. É por isso uma arma dos fracos. E dos covardes. Os autores do boato nunca se revelam. Alimentam-se no - e do - anonimato. E dá-se muitas vezes o caso de o autor do boato remeter para uma fonte a montante. Por isso, na maior parte dos casos, não há propriamente um autor, há antes uma confraria que vai acrescentando um ponto ao conto.

Na mesma família do boato existe um processo de distorção da realidade, com o objetivo de prejudicar terceiros, que é a intriga. A intriga é um sistema, é um caldo de cultura, em que se fabricam os boatos. O boato é o produto do campo da intriga. E a intriga tem os seus cultivadores, semeadores. Pessoal altamente especializado que reorganizou a inveja e a incapacidade de 'fazer' neste sistema de detração universal. Os intriguistas são seres ultrapassados pelo comboio da vida a quem não resta senão atirar pedras, tanto mais tontas e inconsequentes, quanto maior for a velocidade a que ele se desloca. A calúnia é já um processo de mentira objetiva e dolosa. O caluniador sabe que está a mentir e que a sua mentira prejudicará o visado, mas usa-a deliberadamente para produzir o efeito pretendido. A calúnia tem um emissor identificado. Ela não é uma estratégia anônima como o boato, e é, por isso, menos covarde na metodologia, mas igualmente dolosa no processo e na má-fé.

O problema da boato, da calúnia e da intriga é que se constituem como uma economia paralela à economia da verdade. Diminuem o PIB e aumentam o déficit. São forças de bloqueio à produção de riqueza e ao aumento da coesão social. A intriga é uma arma dos pobres de espírito que, sendo incapazes de produzir e de se afirmar por aquilo que são, tentam sobreviver à custa de afirmar aquilo que os outros não são.

Há milhares de Iagos espalhados por aí. Homens e mulheres escondidos atrás de máscaras ridículas de vítimas iverossímeis que demoram a cair. Estragam as relações das pessoas porque elas mesmas não sabem se relacionar com os outros. Mentem, manipulam, traem, gerenciam intrigas e calúnias das mais variadas formas, plantam rumores e fofocas e invejam o que não possuem e quando não possuem ou se lhes escapa das mãos, não medem esforços na maldade para reconquistar o 'prêmio'. E enganam a todos, sem remorso, nunca tomando a culpa para si, são sempre vítimas das intrigas e calúnias que elas mesmos criaram. Não há limites para a maldade. Ai de quem se põe diante de seu caminho!

Não consigo enxergar uma vantagem sequer em conseguir aquilo que se quer passando por cima de todos os valores, esmagando as pessoas, denegrindo-as e criando estórias inexistentes só para ver o circo pegar fogo. Achando que, assim, tira-as do caminho. Lobos em pele de cordeiro. Infelizmente quando você descobre, já é tarde...

Com sorte, um dia a máscara cai. Um dia... Assisto de camarote, pois!

Já estava a ir-me quando me lembrei de um trechinho de Paulo Coelho - e nisso ele estava certo - que diz que:

O demônio é sábio: podendo evitar trabalho, ele evita.
Sempre que pode, ele lança mão de sua armadilha mais fácil e mais efetiva: a intriga.
Quando a usa, o demônio faz pouco esforço - porque é o próprio homem quem trabalha para ele.
Com palavras mal dirigidas, são destruídos meses de dedicação, anos em busca de harmonia.
Frequentemente somos vítimas desta armadilha.
Não sabemos de onde vem o golpe covarde, e não temos como provar que a intriga é falsa.
A intriga não permite o direito de defesa: condena sem julgamento.
Assim como às vezes somos as vítimas, outras vezes somos tentados a exercer o papel do carrasco.
Por isso, cuidado com as palavras; elas têm poder, e o demônio sabe disso.

Caí de paraquedas, infelizmente, mas não há de ser nada. Eu sobrevivo. Tenho bons ombros pra carregar o peso do fardo. Há de ser só mais um teste do 'Cara lá de cima' pra ver se eu aguento o tranco. Que ano de provações. O que passou e o que entrou. Alguma dúvida? Eu supero. Ah, se supero. Ego sum qui sum. Infeliz de quem plantou a intriga e fez-se de vítima. Jamais e grifo bem JAMAIS falo daquilo que não sei porque não quero que façam comigo o que não gostaria que fizessem. E busco os porquês e as provas para mim porque só a mim interessa. Não faço uso de mentiras. Sou jornalista e busco fontes mais do que confiáveis. Sempre. Em tudo o que faço na vida. Não confio no diz-que-me-disse.

Tenho que confessar que, neste caso específico, cada vez que busco a verdade, mais ela me assusta... E não, não faço intrigas porque cresci vendo em que poço de maldade é capaz de afundar o ser. E isso não quero pra mim JAMAIS!!! Sou transparente. Sou o que sou. Não preciso de estorinhas ou mirabolices para tornar-me mais interessante. Sou bem resolvida quanto a isso. Mais uma vez: ego sum qui sum. Sou o que sou. Sou porque busco ser. E não preciso atropelar ninguém para isto. Acredite você ou não. Mas isso, o tempo há de mostrar. Falem o quanto quiserem. Se incomodo, não sei. Esse ódio todo, felizmente, não me atinge. Como diria Shakespeare, é o veneno que você toma querendo que eu morra.

domingo, 20 de junho de 2010

O que é bom? E o que não é bom? Será preciso alguém pra nos dizer isso?

Acho a maior graça. Tomate previne isso,cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.

Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.

Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me
embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo,
faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir
desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

Luís Fernando Veríssimo

domingo, 4 de abril de 2010

Tudo na vida se reduz a uma única frase: pra ganhar, tem que perder. O que a gente faz é dar o devido peso às coisas. Se elas valem a pena, por que não? O gris existe. Não só o preto e o branco.

É o silêncio que acaba por dilacerar a alma ávida por ruídos. E o corpo anseia pela vida que - junto contigo - se deixa esvair entre os dedos...

Eternidade

O sol que invade a sala das lembranças não aquece mais a alma. Já é hora de fechar as gavetas da esperança e o armário da mente conturbada. Deixo a cama pronta pra partida do sonho. Lacro o frasco do eterno pra não perder a essência dos bons momentos. E bebo do teu veneno antes que me entregues em bandeja de prata e vire um bibelô qualquer na estante empoeirada do teu passado.
Ah, desejo besta de te ter ao menos na memória e que me guardes na tua feito pedra preciosa...

Insuficiência

Nada se move. Nem uma folha sequer. E eu permaneço estagnada ainda que mantenha-me ocupada em todos os malditos minutos no dia. Nada se move. Não há vento algum pra varrer essa sujeirada que se acumulou no caminho. Chove - e muito! -, mas a água não é suficiente pra lavar a crosta grossa de decepções que começa a pesar o corpo...

Nem se me conhecesse em cores - ou em gris, vez em quando - Clarice Lispector me traduziria tão bem...

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Clarice Lispector

sábado, 3 de abril de 2010

Normose

Curitiba, 17-18°C, Sexta-feira Santa à noite: sopa Leão Veloso, suco de tangerina e entre uma besteira e outra, algo filosófico surgia...
'Normose'
(a doença de ser normal)

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não
é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre,
belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a
vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum
problema. Quem não se "normaliza", quem não se encaixa nesses padrões,
acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós
gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações
de não enquadramento.

A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses
ditadores de comportamento que "exercem" tanto poder sobre nossas
vidas? Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja
assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha
"presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados.

A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação
e a ânsia de querer ser o que não se precisa ser. Você precisa de
quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar
quantos quilos até o verão chegar?

Então, como aliviar os sintomas desta doença? Um pouco de auto-estima
basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem
todas as regras bovinamente, e sim, aquelas que desenvolveram
personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu
modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não
passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não
adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É
fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.

Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover
obstáculos mentais e emocionais e tentam viver de forma mais íntegra,
simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não
conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é
porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é
iluminada. A normose está doutrinando erradamente muitos homens e
mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e
felizes.

Michel Schimidt
Psicoterapeuta

Normal? Eu? Postando às 3:56 da madruga... Sei não.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Se

se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
(Paulo Leminski)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Do tamanho da minha intensidade

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Clarice Lispector